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Entrevista para O Popular (10/02/2013) Canção, estética e política: ensaios legionários
Entrevista/Marcos Carvalho Lopes
“A Legião Urbana procurou representar o País”
Autor do livro Canção, Estética e Política –
Ensaios Legionários (Ed. Mercado de Letras), o professor Marcos Carvalho
Lopes faz uma leitura sob um prisma diferente das canções da Legião
Urbana. Na obra, ele salienta os aspectos filosóficos das músicas da
banda e suas articulações com o contexto histórico em que produziram.
Com mestrado em Filosofia pela UFG e fazendo doutorado na área na
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marcos, que é natural de
Jataí, liga Renato Russo a ideias de, entre outros pensadores, Heidegger
e Rousseau, sem lhe negar toda o patrimônio musical que recebeu e
produziu. Nesta entrevista, Marcos comenta algumas das canções mais
emblemáticas do grupo, defende que o rock dos anos 1980 deu continuidade
a uma evolução da MPB e discorda da ideia de que os jovens daquela
década fossem mais politizados.
Conteúdo
completo e sem edição da entrevista para Rogério Borges (de O popular)
Uma perspectiva filosófica aparece na obra da Legião Urbana de diversos modos e nem sempre como questões específicas ou distintamente filosóficas. Já no sobrenome artístico "Russo" que Renato escolheu para si, haveria uma junção de referências entre os filósofos Bertrand Russel, Jean-Jacques Rousseau, o pintor primitivista francês Henry Rousseau e a expressão "tá russo". Mas esta escolha não é apenas uma citação indireta, já que Renato em seu trabalho inicial pressupõe uma perspectiva utópica que se justificaria por uma natureza humana de tendência positiva (o bom selvagem) que foi corrompida pelo desenvolvimento da técnica. É o ideal de bom selvagem que acena toda vez que a Legião fala em "índios". Esta questão sobre o resgate de uma natureza romântica que foi corrompida se reconfigura de formas diversas formas dentro da obra da Legião, alegoricamente (como em Faroeste Caboclo), ceticamente (como em "Índios") e até mesmo de modo contraditório (em Sereníssima, por exemplo, Utilizam a descrição que Rousseau fazia do homem como "animal sentimental" para, a seguir afirmar: "não estou mais interessado no que sinto, não acredito em nada além do que duvido"). As transformações destas descrições se ligam aquilo que a Legião Urbana herdou da chamada Música Popular Brasileira: o desafio de representar o país e seu sentido. Esta dimensão política não se separava de interrogações existenciais, como por exemplo sobre a forma que cotidianamente escondemos de nós mesmos a finitude, fingimos não reconhecer que somos mortais (o que Heidegger chama de ser-para-a-morte acena em Tempo Perdido). Enfim, há um projeto que se desdobra em canções, discos e num discurso reflexivo que procura se aperfeiçoar na forma de pensar o individuo e o país.
As
pessoas parecem ter a tendência de achar que algo popular, de consumo de massa,
é necessariamente algo superficial. O Legião Urbana desmente isso?
Este tipo de juízo é ele mesmo superficial e parece ser uma tentativa de justificar algum tipo de ressentimento. Dentro daquilo que geralmente se qualifica como produtos voltados para o consumo das "massas" há um espectro de obras que podem ser classificadas tanto positivamente como negativamente. O mesmo acontece na chamada cultura erudita: existem coisas boas e coisas ruins. As melhores geralmente ajudam as pessoas a se transformarem, modificando sua autoimagem dê modo a se adaptar e mudar hábitos que se mostram ultrapassados ou prejudiciais. As ruins afirmam "mais do mesmo", não provocam reflexão e reafirmam certos comportamentos padronizados como corretos. É difícil negar a importância de Bob Dylan, dos Beatles, de Caetano Veloso, da Legião Urbana etc. numa onda que vêm se acelerando a partir da década de 60, universalizando a ideia existencialista de autocriação e busca por algo que de modo vago podemos chamar de "autenticidade".
O
contexto histórico em que o grupo surgiu, em sua opinião, foi preponderante
para o caminho que ele tomou, para os problemas que abordou e para as formas
como fez isso?
Sim. Como o melhor daquilo que chamaram de MPB, a Legião Urbana procurou representar o país e traduzir seu tempo em canção. Uma leitura cuidadosa facilmente refuta a ideia de que o rock brasileiro dos anos 80 representou um retrocesso no que Caetano chamava de caminho evolutivo da canção popular no Brasil. Na década de 80,sem os limites da ditadura, o rock dos anos 80 pode radicalizar e desenvolver o anseio de autocriação que já acenava no tropicalismo. Isso significava tomar como relevante e dar mais espaço para o desejo em sentido democrático, ao invez de pressupor uma convergência de todos as canções numa verdade redentora, numa utopia revolucionária contra à Ditadura. Nos anos 80 a redenção e a utopia não tinham mais lugar ou eram uma pálida lembrança. A Legião teve que lidar com um contexto que corresponde a descrição de Cazuza em Ideologia, com heróis autodestrutivos que morreram de overdose, num horizonte político conservador e contrário aos anseios democráticos.
Você
identifica algumas fases dos discursos do grupo, que foram mudando com o tempo
e as transformações sociais que o Brasil vivia nos anos 1980. Quais são elas e
que especificidades traziam?
Cada álbum de estúdio da Legião Urbana traz um discurso que tentar representar o país. Cada um traz transformações importantes. Mas de modo geral afirmo que houve um movimento geral da cultura brasileira a partir da chamada Era Collor que teve um significado terrível para a cultura brasileira, na medida em que colocou em xeque os anseios épicos da democracia e como isso a própria possibilidade do cantor se identificar com o país. Num sentido isso trouxe o fim da MPB, aqueles que cantam o país passaram a descrevê-lo como algo exterior e não mais de forma lírica, por isso as canções políticas passaram a flertar ou assumir a forma do rap. Essa grande mudança aparece no álbum V em sua representação surrealista da Era Collor e em o descobrimento do Brasil com o enterro de nossos problemas de dimensão pública (em Perfeição) e a "fuga" para a vida privada. Descrevo diversas mudanças anteriores com mais detalhes no livro, mas prefiro destacar aqui esta mais ampla, que apaga a marca forte de uma Utopia Lírica que acenava desde a década de 60 nas canções de Chico Buarque, Caetano Veloso, Bob Dylan, Beatles etc.
O jovem
dos anos 1980 estava mais disposto a pensar, a refletir, a debater?
Realmente
o futuro não é mais como era antigamente. O tempo parece mesmo ter se achatado
em um eterno presente. Com certeza o jovem dos anos 80 não tinha os mesmos
desafios que assombram a juventude atual, por isso qualquer comparação é
problemática e redutora. Nasci em 1980, e, para mim, a figuras caricaturais que
encontrei nos livros didáticos na quarta-série (em 1989) mostrando de um lado
um urso raivoso com estrela e martelo da URSS ameaçando um Tio Sam também cheio
de dentes, já não era algo com muito significado para além de um maniqueísmo de
desenho animado (no qual não sabia qual lado seria o "bom"). Todos
pensam e "refletem" na medida em que sentem que existem problemas que
lhes diz respeito, quando sentem que as coisas tem que mudar porque não estão
funcionando adequadamente. Resumindo, não acho que os jovens dos anos 80 eram
mais reflexivos.
A banda
Legião Urbana cantou um país em polvorosa, de fracassos econômicos,
instabilidades políticas, incertezas sociais tremendas. Em sua avaliação, até
onde aquele país mudou?
De modo
geral os últimos anos tem sido de um progresso gradual que se traduz
efetivamente na diminuição das desigualdades sociais. Um jovem no Brasil
provavelmente espera ganhar mais e viver melhor do que seus pais, o que não vale
para um jovem europeu (e cada vez menos para um norte-americano ou japonês). A
relativa estabilidade econômica e política dá mais espaço para que as pessoas
cuidem de seus desejos individuais e esqueçam o bem comum, a coisa pública. A
Legião Urbana – como o rock em geral – se filia ao desejo e a busca individual
de autenticidade (ainda que tal procura tenha uma dimensão pública). Se algo mudou,
espero que seja um anseio cada vez maior de um desenvolvimento republicano, de
uma classe média e baixa que ascende a partir de seus próprios méritos e que
prosaicamente tenta modificar os costumes clientelistas. Talvez essa descrição
seja uma forma de esperança: é que quero ampliar o futuro!
Qual a sua canção preferida da Legião Urbana e
por quê?
A minha favorita é Metal Contra as Nuvens, talvez porque seja a mais longa. Mas uma explicação mais razoável está no desafio que suas múltiplas vozes trouxe para o meu trabalho: demorei alguns anos tentando entender o Lado A de V, onde esta canção aparece. Melancolia, surrealismo, ideais (adolescentes) de honra, esperança, crítica social... há um bocado disso nesta canção.
Os
roqueiros universitários da Legião foram substituídos pelos sertanejos
universitários, tão na moda hoje? Teríamos involuído?
Não acredito que exista parentesco entre estes grupos para além, talvez, da afirmação de que camadas mais humildes da sociedade estão cada vez mais conseguindo frequentar a universidade, no entanto, sem que isso modifique de forma relevante seu discurso e desejo. Nas universidades cada vez mais temos um lugar de instrução e menos de formação. Há dois polos apelativos e vulgares para se fazer canção popular: o amor eterno ou o prazer constante. Parece que o sertanejo mais recente deixou de lado as promessas e ilusões inevitáveis do amor eterno (um discurso que tem em comum com os emos) e passou para o outro polo, celebrando o prazer constante (algo mais próximo do funk carioca). Vejo um progresso de costumes nesta transição entre estes polos, apesar de que a realização de qualquer deles é impossível. A Legião geralmente fugia destes dois extremos, mas isso não é algo que possa se dizer de todo rock feito por aqui. Há coisas boas e ruins, e como diz Caetano, diversas harmonias possíveis sem um juízo final.
Entrevista para Rogério Borges publicada em O Popular de 10 de Fevereiro de 2013 (Domingo)
Entrevista/Marcos Carvalho Lopes
“A Legião Urbana procurou representar o País”
Autor do livro Canção, Estética e Política –
Ensaios Legionários (Ed. Mercado de Letras), o professor Marcos Carvalho
Lopes faz uma leitura sob um prisma diferente das canções da Legião
Urbana. Na obra, ele salienta os aspectos filosóficos das músicas da
banda e suas articulações com o contexto histórico em que produziram.
Com mestrado em Filosofia pela UFG e fazendo doutorado na área na
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marcos, que é natural de
Jataí, liga Renato Russo a ideias de, entre outros pensadores, Heidegger
e Rousseau, sem lhe negar toda o patrimônio musical que recebeu e
produziu. Nesta entrevista, Marcos comenta algumas das canções mais
emblemáticas do grupo, defende que o rock dos anos 1980 deu continuidade
a uma evolução da MPB e discorda da ideia de que os jovens daquela
década fossem mais politizados.
Rogério Borges
10 de fevereiro de 2013 (domingo)
Em seu livro, você investiga as
questões filosóficas presentes na obra musical da Legião Urbana. Como
elas se apresentam e quais são suas principais marcas?
Uma perspectiva filosófica
aparece na obra da Legião Urbana de diversos modos e nem sempre como
questões específicas ou distintamente filosóficas. Renato Russo, em seu
trabalho inicial, pressupõe uma perspectiva utópica que se justificaria
por uma natureza humana de tendência positiva (o bom selvagem) que foi
corrompida pelo desenvolvimento da técnica. Esta questão sobre o resgate
de uma natureza romântica que foi corrompida se reconfigura de diversas
formas dentro da obra da Legião, alegoricamente (como em Faroeste Caboclo), ceticamente (como em Índios) e até mesmo de modo contraditório – em Sereníssima,
por exemplo, utiliza a descrição que Rousseau fazia do homem como
“animal sentimental” para, a seguir, afirmar: “não estou mais
interessado no que sinto, não acredito em nada além do que duvido”. As
transformações destas descrições se ligam àquilo que a Legião Urbana
herdou da chamada música popular brasileira: o desafio de representar o
País e seu sentido. Esta dimensão política não se separava de
interrogações existenciais, como sobre a forma que cotidianamente
escondemos de nós a finitude, fingimos não reconhecer que somos mortais.
Enfim, há um projeto que se desdobra em canções, discos e num discurso
reflexivo que procura se aperfeiçoar na forma de pensar o indivíduo e o
País.
As pessoas parecem ter a
tendência de achar que algo popular, de consumo de massa, é
necessariamente superficial. Legião Urbana desmente isso?
Este tipo de juízo é ele mesmo superficial e
parece ser uma tentativa de justificar algum tipo de ressentimento.
Dentro daquilo que geralmente se qualifica como produtos voltados para o
consumo das massas, existe um espectro de obras que podem ser
classificadas tanto positiva como negativamente. O mesmo acontece na
chamada cultura erudita: existem coisas boas e coisas ruins. As melhores
geralmente ajudam as pessoas a se transformar, modificando sua
autoimagem de modo a se adaptar e mudar hábitos que se mostram
ultrapassados ou prejudiciais. As ruins afirmam “mais do mesmo”, não
provocam reflexão e reafirmam certos comportamentos padronizados como
corretos. É difícil negar a importância de Bob Dylan, dos Beatles, de
Caetano Veloso, da Legião Urbana etc. numa onda que vem se acelerando a
partir da década de 1960, universalizando a ideia existencialista de
autocriação e busca por algo que, de modo vago, podemos chamar de
autenticidade.
O contexto histórico em que o
grupo surgiu, em sua opinião, foi preponderante para o caminho que ele
tomou, para os problemas que abordou e para as formas como fez isso?
Sim. Como o melhor daquilo que chamaram de
MPB, a Legião Urbana procurou representar o País e traduzir seu tempo em
canção. Uma leitura cuidadosa refuta a ideia de que o rock brasileiro
dos anos 1980 representou um retrocesso no que Caetano chamava de
caminho evolutivo da canção popular no Brasil. Na década de 1980, sem os
limites da ditadura, o rock pôde radicalizar e desenvolver o anseio de
autocriação que já acenava no tropicalismo. Isso significava tomar como
relevante e dar mais espaço para o desejo em sentido democrático, ao
invés de pressupor uma convergência de todas as canções numa verdade
redentora, numa utopia revolucionária contra a ditadura. Nos anos 1980, a
redenção e a utopia não tinham mais lugar ou eram uma pálida lembrança.
A Legião teve de lidar com um contexto que corresponde à descrição de
Cazuza em Ideologia, com heróis autodestrutivos que morreram de overdose, num horizonte político conservador e contrário aos anseios democráticos.
Você identifica algumas fases
dos discursos do grupo, que foram mudando com o tempo e as
transformações sociais que o Brasil vivia nos anos 1980. Quais são elas e
que especificidades traziam?
Cada álbum de estúdio da Legião Urbana traz
um discurso que tenta representar o País. Mas de modo geral afirmo que
houve um movimento geral da cultura brasileira a partir da era Collor
que teve um significado terrível para a cultura brasileira, na medida em
que colocou em xeque os anseios épicos da democracia e como isso a
própria possibilidade de o cantor se identificar com o País. Num sentido
isso trouxe o fim da MPB, aqueles que cantam o País passaram a
descrevê-lo como algo exterior e não mais de forma lírica, por isso as
canções políticas passaram a flertar ou assumir a forma do rap. Essa
grande mudança aparece no álbum V, em sua representação surrealista da era Collor, e em O Descobrimento do Brasil, com o enterro de nossos problemas de dimensão pública e a fuga para a vida privada.
O jovem dos anos 1980 estava mais disposto a pensar, a refletir, a debater?
Com certeza o jovem dos anos 1980 não tinha
os mesmos desafios que assombram a juventude atual, por isso qualquer
comparação é problemática e redutora. Nasci em 1980, e, para mim, as
figuras caricaturais que encontrei nos livros didáticos na 4ª série (em
1989), mostrando de um lado um urso raivoso com estrela e martelo da
URSS ameaçando um Tio Sam também cheio de dentes, já não era algo com
muito significado para além de um maniqueísmo de desenho animado. Todos
pensam e refletem na medida que sentem que existem problemas que lhes
dizem respeito, quando sentem que as coisas têm de mudar porque não
estão funcionando adequadamente. Resumindo, não acho que os jovens dos
anos 1980 eram mais reflexivos.
A banda Legião Urbana cantou um
país em polvorosa, de fracassos econômicos, instabilidades políticas,
incertezas sociais. Em sua avaliação, até onde aquele Brasil mudou?
Os últimos anos têm sido de um progresso
gradual que se traduz na diminuição das desigualdades sociais. Um jovem
no Brasil espera ganhar mais e viver melhor, o que não vale para um
jovem europeu. A relativa estabilidade econômica e política dá mais
espaço para que as pessoas cuidem de seus desejos e esqueçam o bem
comum, a coisa pública. A Legião Urbana, como o rock em geral, se filia
ao desejo e à busca individual de autenticidade (ainda que tal procura
tenha uma dimensão pública). Se algo mudou, espero que seja um anseio
cada vez maior de um desenvolvimento republicano, de uma classe média e
baixa que ascenda a partir de seus méritos e que tente modificar os
costumes clientelistas.
Os roqueiros universitários da Legião foram substituídos pelos sertanejos universitários? Teríamos involuído?
Não acredito que exista
parentesco entre estes grupos para além, talvez, da afirmação de que
camadas mais humildes da sociedade estão cada vez mais conseguindo
frequentar a universidade, sem que isso modifique de forma relevante seu
discurso e desejo. Nas universidades cada vez mais temos um lugar de
instrução e menos de formação. Há dois polos apelativos e vulgares para
se fazer canção popular: o amor eterno ou o prazer constante. Parece que
o sertanejo mais recente deixou de lado as promessas e ilusões
inevitáveis do amor eterno e passou para o outro polo, celebrando o
prazer constante (algo mais próximo do funk carioca). Vejo um progresso
de costumes nesta transição entre estes polos, apesar de que a
realização de qualquer deles é impossível. A Legião geralmente fugia
destes dois extremos, mas isso não é algo que possa se dizer de todo
rock feito por aqui. Há coisas boas e ruins e, como diz Caetano,
diversas harmonias possíveis sem um juízo final.
Fonte: http://www.opopular.com.br/editorias/magazine/a-legi%C3%A3o-urbana-procurou-representar-o-pa%C3%ADs-1.275003
Saiu no Terceiro Caderno!: Ensaios Legionários: tudo o que Renato Russo queria dizer
O jornalista Paulo Galvez, meu amigo desde os tempos de estudante em Goiânia, fez uma apresentação do Canção, estética e política: ensaios legionários. Ele foi o primriro a ler o trabalho todo (ou "quase" completo).
Ensaios Legionários: tudo o que Renato Russo queria dizer
Por Paulo Galvez
Tive o prazer de ler o livro Canção,
Estética e Política: Ensaios Legionários ainda nos originais, uns bons
anos atrás. Duplo prazer, por ser fã da Legião Urbana e amigo do autor,
o então estudante de filosofia e hoje doutorando Marcos Carvalho Lopes.
Era a Goiânia do início dos anos 2000, com noites regadas a cerveja -
pouca, já que Marcos não bebia - música e conversas semifilosóficas:
filosóficas por causa do Marcos e semi de minha parte, empolgado pelas
ideias sugeridas pelo álcool.Os anos se passaram, hoje vivo em Curitiba e entendo cada vez menos as coisas, o Marcos vive no Rio de Janeiro onde estuda e trabalha, e o ócio criativo ficou para trás. Não sei ele, mas eu já nem acreditava mais na publicação da obra - que tece uma teia filosófica para explicar a obra da Legião - devido ao complicado mercado editorial brasileiro. Portanto, foi com surpresa que recebi a notícia do lançamento, pelo Mercado das Letras, meses atrás.
Semana passada recebi pessoalmente meu exemplar, feliz com a conclusão de um belo trabalho sobre o qual tanto conversamos e pelo privilégio de conhecer de perto o que está ali: "É praticamente o mesmo texto", confirma o autor. O que não dispensa uma nova leitura assim que o escasso tempo permitir.
Se você é fã do rock nacional dos anos 1980, os melhores, e quer saber de onde vinha a criatividade de Renato Russo, além de compreender as ideias sugeridas na bela obra da banda, é uma leitura imperdível.
Canção, Estética e Política - Ensaios Legionários pode ser solicitado diretamente no site da editora ou em livrarias virtuais: mais informações aqui.
Marcos Carvalho Lopes destaca trecho do livro "Canção, estética e política" - no Correio Braziliense
Por: Gabriel de Sá
Publicação: 15/07/2012 08:00 Atualização:
Marcos Carvalho Lopes, 31 anos, era professor de filosofia em escolas estaduais de sua cidade natal, Jataí (GO), quando decidiu, no começo dos anos 2000, se utilizar de letras de canções da Legião Urbana para despertar em seus alunos interesse pela disciplina. Fã da banda desde meados da década anterior, o jovem não era do tipo que ia a shows, mas se impressionava com as ideias que embasavam os escritos de Renato Russo. Os estudos informais foram ganhando consistência e Marcos decidiu colocá-los no papel. Entre 2001 e 2007, dedicou-se a escrever Canção, estética e política — Ensaios legionários, que chega agora às lojas, pelo Mercado de Letras.
Um dos primeiros estalos de que a obra da Legião poderia manter um diálogo com questões filosóficas veio com a canção Se fiquei esperando meu amor passar, do álbum As quatro estações (1989). “Ela mistura a descrição de uma relação afetiva idealizada com um canto do catecismo católico. Para mim, como adolescente, essa junção satisfazia certa busca platônica que nessa fase da vida se torna muito chamativa. Como diria Nietzsche, o cristianismo seria um platonismo para massas”, detalha Marcos. Já no início da letra de Sereníssima, (“Sou um animal sentimental/ Me apego facilmente ao que desperta meu desejo”), o estudioso percebeu uma alusão ao filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, que descreveu o homem desta forma.
O autor Marcos Carvalho Lopes destaca alguns trechos de seu livro "Canção, estética e política - Ensaios legionários".
Publicação: 15/07/2012 08:00 Atualização:
Marcos Carvalho Lopes, 31 anos, era professor de filosofia em escolas estaduais de sua cidade natal, Jataí (GO), quando decidiu, no começo dos anos 2000, se utilizar de letras de canções da Legião Urbana para despertar em seus alunos interesse pela disciplina. Fã da banda desde meados da década anterior, o jovem não era do tipo que ia a shows, mas se impressionava com as ideias que embasavam os escritos de Renato Russo. Os estudos informais foram ganhando consistência e Marcos decidiu colocá-los no papel. Entre 2001 e 2007, dedicou-se a escrever Canção, estética e política — Ensaios legionários, que chega agora às lojas, pelo Mercado de Letras.
Um dos primeiros estalos de que a obra da Legião poderia manter um diálogo com questões filosóficas veio com a canção Se fiquei esperando meu amor passar, do álbum As quatro estações (1989). “Ela mistura a descrição de uma relação afetiva idealizada com um canto do catecismo católico. Para mim, como adolescente, essa junção satisfazia certa busca platônica que nessa fase da vida se torna muito chamativa. Como diria Nietzsche, o cristianismo seria um platonismo para massas”, detalha Marcos. Já no início da letra de Sereníssima, (“Sou um animal sentimental/ Me apego facilmente ao que desperta meu desejo”), o estudioso percebeu uma alusão ao filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, que descreveu o homem desta forma.
O autor Marcos Carvalho Lopes destaca alguns trechos de seu livro "Canção, estética e política - Ensaios legionários".
O autor Marcos Carvalho Lopes destaca alguns trechos de seu livro "Canção, estética e política - Ensaios legionários".
"Invertendo paradigmas sociais – feito comum nas canções da Legião onde existem narrativas, em Eduardo e Mõnica é ela quem “comanda” a relação: é mais velha, faz medicina, fala alemão, tem um gosto literário e musical refinado (gosta da poesia de Manoel Bandeira e do francês Arthur Rimbaud, das canções de Bauhaus, Mutantes e Caetano Veloso, da pintura de Van Gogh...) é mística, é punk (usa tinta no cabelo) e liberal. Eduardo aparece como um rapaz caseiro, de classe média burguesa, muito ligado aos valores familiares. Dessa combinação inusitada, surge uma relação amorosa, que cultivada (fizeram juntos natação, artesanato, teatro e viagens), fez com que conseguissem certo equilíbrio. Juntos (brigando, trabalhando, comemorando, etc.) construíram uma casa, uma família e todos dizem que são diferentes, mas se completam. Mesmo “com tudo diferente” inventaram uma saída poética por meio do amor." (p.64)
Começa o faroeste. Mas, o que diz “faroeste”? Esse nome nos trás a memória um gênero cinematográfico que, diferentemente de outros que se definem pelo sentimento que causariam no espectador (drama, suspense, terror etc.), representa uma região geográfica numa época específica: o “Oeste Selvagem” (Wild West ) dos Estados Unidos na segunda metade do século XIX, no período que vai da Guerra Civil ao fim da expansão dos rebanhos e da exploração de minérios, por volta de 1880. A chamada “marcha para o Oeste” (que deu origem ao nome far west ), teve como objetivo a busca por terras e ouro, o sonho de que nas regiões selvagens estariam as oportunidades de futuro e liberdade. No entanto, a rápida ocupação territorial gerou uma sociedade onde, sem a presença do Estado, valia a lei do mais forte.[...] Na história de João do Santo Cristo a “marcha para o Oeste” é a migração da personagem de uma região pobre do nordeste brasileiro em busca de um lugar onde tivesse oportunidades. Brasília surge como a “visão do paraíso”, uma terra prometida em sua dimensão utópica estrutural. (p.78-79)
[...] ao abandonar o mundo em favor de um ideal, ao procurar um ponto fixo a partir do qual tudo poderia ser explicado, o discurso da Legião Urbana caiu na metafísica como descrita por Jorge Luis Borges: uma espécie de literatura fantástica que nos causa admiração e assombro, mas que é constantemente desmentida pela realidade. O sentimento exaltado em As Quatro Estações é um ideal, o discurso desse álbum é de idealismo-romântico. A tediosa obsessão romântica com a morte e a sublimação ganham contornos políticos de transformação social: num momento em que o país se preparava para eleger democraticamente um presidente, depois de mais de 25 anos, o discurso da Legião Urbana captou e refletiu bem a esperança utópica de que a democracia poderia trazer consigo uma melhoria nas condições de vida da população. O confronto com a realidade facilmente “derreteria as asas de cera” desse idealismo romântico pós-moderno: infelizmente, isso era inevitável, não só para esse grupo de rock, mas para o país inteiro. (p.117)
É difícil daí não deduzir um paralelismo entre a vida pessoal e a vida da nação em o descobrimento do brasil. Os vícios de anos de Ditadura estariam vindo à tona com toda a força e o país precisaria se reinventar para sair do ciclo destrutivo de euforia e depressão, ou seja, deveríamos abandonar as esperanças de transformações épicas na política e assumir cada qual sua responsabilidade na difícil transformação dessa realidade. O seu discurso tentava também assimilar as lições da Era Collor. Nesse sentido, o descobrimento do brasil funcionaria como “uma reconstrução”, buscando falar “da valorização da família sem ser careta”, denunciando a indiferença e exaltando a responsabilidade de cada um como cidadão. (p.136)
"Invertendo paradigmas sociais – feito comum nas canções da Legião onde existem narrativas, em Eduardo e Mõnica é ela quem “comanda” a relação: é mais velha, faz medicina, fala alemão, tem um gosto literário e musical refinado (gosta da poesia de Manoel Bandeira e do francês Arthur Rimbaud, das canções de Bauhaus, Mutantes e Caetano Veloso, da pintura de Van Gogh...) é mística, é punk (usa tinta no cabelo) e liberal. Eduardo aparece como um rapaz caseiro, de classe média burguesa, muito ligado aos valores familiares. Dessa combinação inusitada, surge uma relação amorosa, que cultivada (fizeram juntos natação, artesanato, teatro e viagens), fez com que conseguissem certo equilíbrio. Juntos (brigando, trabalhando, comemorando, etc.) construíram uma casa, uma família e todos dizem que são diferentes, mas se completam. Mesmo “com tudo diferente” inventaram uma saída poética por meio do amor." (p.64)
Começa o faroeste. Mas, o que diz “faroeste”? Esse nome nos trás a memória um gênero cinematográfico que, diferentemente de outros que se definem pelo sentimento que causariam no espectador (drama, suspense, terror etc.), representa uma região geográfica numa época específica: o “Oeste Selvagem” (Wild West ) dos Estados Unidos na segunda metade do século XIX, no período que vai da Guerra Civil ao fim da expansão dos rebanhos e da exploração de minérios, por volta de 1880. A chamada “marcha para o Oeste” (que deu origem ao nome far west ), teve como objetivo a busca por terras e ouro, o sonho de que nas regiões selvagens estariam as oportunidades de futuro e liberdade. No entanto, a rápida ocupação territorial gerou uma sociedade onde, sem a presença do Estado, valia a lei do mais forte.[...] Na história de João do Santo Cristo a “marcha para o Oeste” é a migração da personagem de uma região pobre do nordeste brasileiro em busca de um lugar onde tivesse oportunidades. Brasília surge como a “visão do paraíso”, uma terra prometida em sua dimensão utópica estrutural. (p.78-79)
[...] ao abandonar o mundo em favor de um ideal, ao procurar um ponto fixo a partir do qual tudo poderia ser explicado, o discurso da Legião Urbana caiu na metafísica como descrita por Jorge Luis Borges: uma espécie de literatura fantástica que nos causa admiração e assombro, mas que é constantemente desmentida pela realidade. O sentimento exaltado em As Quatro Estações é um ideal, o discurso desse álbum é de idealismo-romântico. A tediosa obsessão romântica com a morte e a sublimação ganham contornos políticos de transformação social: num momento em que o país se preparava para eleger democraticamente um presidente, depois de mais de 25 anos, o discurso da Legião Urbana captou e refletiu bem a esperança utópica de que a democracia poderia trazer consigo uma melhoria nas condições de vida da população. O confronto com a realidade facilmente “derreteria as asas de cera” desse idealismo romântico pós-moderno: infelizmente, isso era inevitável, não só para esse grupo de rock, mas para o país inteiro. (p.117)
É difícil daí não deduzir um paralelismo entre a vida pessoal e a vida da nação em o descobrimento do brasil. Os vícios de anos de Ditadura estariam vindo à tona com toda a força e o país precisaria se reinventar para sair do ciclo destrutivo de euforia e depressão, ou seja, deveríamos abandonar as esperanças de transformações épicas na política e assumir cada qual sua responsabilidade na difícil transformação dessa realidade. O seu discurso tentava também assimilar as lições da Era Collor. Nesse sentido, o descobrimento do brasil funcionaria como “uma reconstrução”, buscando falar “da valorização da família sem ser careta”, denunciando a indiferença e exaltando a responsabilidade de cada um como cidadão. (p.136)
Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2012/07/15/interna_diversao_arte,311879/marcos-carvalho-lopes-destaca-trecho-do-livro-cancao-estetica-e-politica.shtml#.UAA8PkcufWk.facebook
Publicado também no Diário de Pernambuco : http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2012/07/15/internas_viver,385254/livro-de-escritor-goiano-explica-letras-de-musicas-da-legiao-urbana.shtml
Publicado também no Diário de Pernambuco : http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2012/07/15/internas_viver,385254/livro-de-escritor-goiano-explica-letras-de-musicas-da-legiao-urbana.shtml
Imprensa: A filosofia da Legião Urbana - texto de VIVIANE BEVILACQUA no Pioneiros de Caxias do Sul
05/07/2012 | N° 11418
LIVRO
A filosofia da Legião Urbana
‘Canção, Estética e Política’ lembra grupo que reunia amor e protesto nas mesmas letras
Canção, Estética e Política – Ensaios Legionários (Editora Mercado de
Letras, 175 págs., R$ 60) é, sim, mais um livro sobre a Legião Urbana,
banda de rock surgida em Brasília, no início da década de 1980, liderada
por Renato Russo, morto em 1996. Mas é mais do que uma biografia do
grupo que vendeu mais de 20 milhões de discos.
Trata-se de um livro de ensaios filosóficos, no qual o autor Marcos Carvalho Lopes faz uma análise minuciosa da vida e obra de Renato Russo e sua trupe, além de uma profunda crítica cultural. Para o doutor em Filosofia Charles Feitosa, que assina a apresentação da obra, enquanto os outros grupos de rock da época se revezavam entre canções românticas ou de revolta, a Legião Urbana criava sons híbridos poderosos, capazes de reunir na mesma levada versos de amor e de protesto (como na música Índios, de 1986). “Isso foi um das marcas da originalidade da Legião Urbana: aqueles garotos eram capazes de, em um mesmo gesto musical, conectar o universal com o particular; o coletivo com o individual; o político com o afetivo. Nesse sentido, o livro Canção, Estética e Política deve ser saudado como um importante acontecimento literário e cultural”, escreveu.
A obra, acredita Feitosa, representa um importante avanço para a filosofia universitária brasileira, que ainda teima em fixar seus olhos na cultura europeia e a ignorar o que se passa à sua volta. Os ensaios propõem diversas chaves de compreensão das canções da Legião Urbana, percorrendo temas tão diversos quanto complexos, como o tempo, o cotidiano, o amor, a existência, a sociedade de consumo, a solidão, os rumos do país, os impasses da arte. O livro de Marcos Carvalho Lopes convida a escutar novamente as canções, mas com olhos e ouvidos renovados.
A Legião Urbana é até hoje um dos grupos musicais da gravadora EMI que mais vende disco de catálogo, com média de 250 mil cópias por ano. Só isso já bastaria para explicar a importância de Renato Russo (voz), Marcelo Bonfá (bateria e percussão) Renato Rocha (contrabaixo) e Dado Villa-Lobos (guitarra, violões, bandolim e viola). O fim oficial da banda foi em 22 de outubro de 1996, 11 dias após a morte de seu mentor, líder e fundador.
viviane.bevilacqua@diario.com.br
VIVIANE BEVILACQUA
Trata-se de um livro de ensaios filosóficos, no qual o autor Marcos Carvalho Lopes faz uma análise minuciosa da vida e obra de Renato Russo e sua trupe, além de uma profunda crítica cultural. Para o doutor em Filosofia Charles Feitosa, que assina a apresentação da obra, enquanto os outros grupos de rock da época se revezavam entre canções românticas ou de revolta, a Legião Urbana criava sons híbridos poderosos, capazes de reunir na mesma levada versos de amor e de protesto (como na música Índios, de 1986). “Isso foi um das marcas da originalidade da Legião Urbana: aqueles garotos eram capazes de, em um mesmo gesto musical, conectar o universal com o particular; o coletivo com o individual; o político com o afetivo. Nesse sentido, o livro Canção, Estética e Política deve ser saudado como um importante acontecimento literário e cultural”, escreveu.
A obra, acredita Feitosa, representa um importante avanço para a filosofia universitária brasileira, que ainda teima em fixar seus olhos na cultura europeia e a ignorar o que se passa à sua volta. Os ensaios propõem diversas chaves de compreensão das canções da Legião Urbana, percorrendo temas tão diversos quanto complexos, como o tempo, o cotidiano, o amor, a existência, a sociedade de consumo, a solidão, os rumos do país, os impasses da arte. O livro de Marcos Carvalho Lopes convida a escutar novamente as canções, mas com olhos e ouvidos renovados.
A Legião Urbana é até hoje um dos grupos musicais da gravadora EMI que mais vende disco de catálogo, com média de 250 mil cópias por ano. Só isso já bastaria para explicar a importância de Renato Russo (voz), Marcelo Bonfá (bateria e percussão) Renato Rocha (contrabaixo) e Dado Villa-Lobos (guitarra, violões, bandolim e viola). O fim oficial da banda foi em 22 de outubro de 1996, 11 dias após a morte de seu mentor, líder e fundador.
viviane.bevilacqua@diario.com.br
VIVIANE BEVILACQUA
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/pioneiro/rs/impressa/11,3811060,1217,19936,impressa.html
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